terça-feira, 23 de março de 2010
Greve no ar
Deixa o CO2 como está
O tributo seria aplicado à indústria, como forma de forçar a redução de emissão de CO2 pelo setor. Era a menina dos olhos, carro-chefe do governo na área ecológica, compromisso programático da campanha de Sarkozy, a ponto de ele ter dito, em setembro do ano passado, que "se não a fazemos, não seremos honestos".
O projeto gozava de antipatia geral. Os empresários foram, obviamente, contra, e mesmo a esquerda considerava-o ecologicamente ineficaz e socialmente injusto. Ele veio ruim ao mundo e, já em dezembro, foi reprovado pelo Conselho Constitucional. Mas, como era questão de honra, o governo se dizia empenhado em remodelar o projeto e meter a taxa carbono em operação a partir de julho.
A notícia desta tarde, que traz a grotesca justificativa de que "ou ela será europeia ou não será" e que não se pode impor à indústria francesa uma carga que prejudicará a sua competitividade em relação à dos outros países da UE (parece que os sarkozystas só notaram agora que estão na Europa), desestabilizou até mesmo integrantes do governo.
Pega de surpresa, a Secretária Nacional de Ecologia, Chantal Jouanno, se declarou "desesperada com o recuo". Há quem aposte que é a próxima a pegar o chapéu e deixar a equipe. O clima lá dentro ficou muito quente pra ela.
Desce uma dose
Até ontem, os sarkozystas escondiam o valor da fatura do desastroso negócio. Mas, hoje, a caixa-preta terá de ser aberta diante do Senado pela própria ministra Roselyne Bachelot. Ela admitirá que a operação de rescisão contratual custou aos cofres públicos franceses a tuta-e-meia de 48 milhões de euros ou cerca de 130 milhões de reais.
Madame Bachelot vai precisar se imunizar contra pancadas. E, principalmente, contra queda.
Imprensa que entra

A terça-feira começou por aqui com uma imensa greve nacional convocada por cinco grandes centrais sindicais. Muitos serviços estão parados, mas nada prejudica tanto a população como a paralisação no sistema de transporte, ainda que seja parcial.
Na rede de metrôs e trens urbanos, a circulação foi reduzida à metade. Ou "está fortemente perturbada, em razão de um movimento social", como eles gostam de anunciar pelos alto-falantes das estações.
Juntar todos os passageiros de dois metrôs em um, às nove da manhã, creiam, não é uma experiência das mais agradáveis para se começar o dia.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Vale por um bifinho
Dia da caça, dia do caçador
Esquerda, volver!

O esperado se concretizou: a esquerda volta à cena na política francesa depois de ter destroçado o partido governista no segundo turno das eleições regionais, realizado nesse domingo. Mais do que a UMP, foram Nicolas Sarkozy e seu governo os maiores derrotados. Cinco dos seus ministros que saíram candidatos perderam a disputa nas urnas.
Das 22 regiões da França metropolitana, só houve vitória dos aliados do Élysée na Alsácia. É o melhor resultado da esquerda desde 1981 e o segundo melhor da V República. Mesmo a extrema direita, que estava quase sepultada, ressuscitou dos escombros e amealhou 20% dos votos, retirados, obviamente, do sarkozysmo.
A surra levou o governo a admitir a necessidade de alguns "ajustes técnicos" e o presidente a dizer que busca "melhor compreender" a mensagem das urnas.
A turma palaciana tentou logo dourar a pílula. O discurso do primeiro-ministro François Fillon é de que resta imaculado o mandato outorgado no plano nacional, três anos atrás, e que essas eleições devem ser colocadas na perspectiva de regionais, ou seja, coisa paroquial. Mas, se não fossem tão importantes, se fossem tão provincianas, por que, então, cinco ministros teriam sido lançados candidatos com as bençãos e forças do chefão?
O fato, em suma, é que o rei está nu. O superman que assumiu em 2007 com a pretensão de inaugurar um modelo moderno e arrojado, a ser seguido e perpetuado no poder, demonstra, atualmente, o seu maior sinal de fraqueza e esgotamento diante da opinião pública.
O petit Nicolas corre agora para arrumar a casa. Afinal, 2012 está em cima e as perspectivas de crescimento são todas favoráveis à esquerda, que - renovada pela união entre socialistas e verdes - está mais animada do que nunca em retornar ao poder.
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