terça-feira, 9 de março de 2010

Espirro de porco

A vacinação contra a Gripe A iniciou esta semana no Brasil e, praticamente, já encerrou na França. Mas sob muitas pedradas. O alerta de pandemia por aqui foi desligado em janeiro depois que os casos da doença começaram a despencar, deixando para trás menos de 300 mortes pretensamente associadas ao H1N1. A ministra da Saúde, que havia autorizado a compra de 94 milhões de doses da vacina, quase caiu, acusada pela oposição e pela opinião pública de ter cedido ao lobby da indústria farmacêutica diante de um falso alarme. Disse que preferiu ser precavida, que a compra era justificável. Mas acabou obrigada, para salvar o governo da artilharia, a rescindir unilateralmente a aquisição de 50 milhões de doses, o que deve gerar aos franceses uma multa de 350 milhões de euros em favor dos laboratórios. Anti-vacinas desde criancinhas (muitos renegam até mesmo a BCG para os filhos recém-nascidos), apenas 5 milhões de cidadãos buscaram se imunizar. A sobra de 40 milhões de doses, a França vai empurrando, aos pouquinhos, para alguns parceiros estratégicos. Nós, entre eles, que ajudaremos a pagar a fatura do fiasco da vacinação por aqui.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O que foi dito

"A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada como um ser autônomo (...) Ela se determina e se diferencia em comparação ao homem e não ele em comparação a ela." Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo

Dilma na Tribune

Na ampla cobertura que a imprensa francesa traz hoje sobre o Dia Internacional da Mulher, o jornal econômico La Tribune dá destaque, numa matéria sobre América Latina, a Dilma Rousseff (De Evita a Dilma, a nova substituição no mundo político). Diz que o clube das presidentas latino-americanas (Cristina de Kirchner, da Argentina, Laura Chinchilla, da Costa Rica, e Michelle Bachelet, do Chile) "aguarda, quem sabe, o Brasil, onde o chefe de Estado que sai, Luiz Inacio Lula da Silva, apoia a candidatura de uma mulher, Dilma Rousseff, para a eleição presidencial de outubro de 2010".

Cores de Frida Kahlo


Se você vier por aqui até abril próximo, deixo uma sugestão: pegue um trem e vá a Bruxelas, entorno, região metropolitana de Paris. Uma hora e pouquinho, e você estará lá. O Palácio de Belas Artes da capital belga recebe, até 18 do mês que vem, a exposição Frida Kahlo y su mundo. São 19 quadros, desenhos e várias fotografias que imprimiram no Século XX todo o simbolismo e o surrealismo em que viveu a artista mexicana. Seus dramas - o acidente aos 17 anos, as sequelas que arrastou por toda a existência, o casamento atribulado com Diego Rivera - parecem saltar das telas. Confesso que, cada vez que vejo uma, fico tocado com a força que os traços e as cores conseguem exprimir. Fico mesmo sensibilizado com a dor que sinto vir de lá. E me pergunto que tintas são essas... Para mais um pouquinho sobre a exposição, vá em http://www.youtube.com/watch?v=pt97x6_SpbM&feature=player_embedded#.

Risco de degola

A França está em pânico com a crise grega. Ao receber o primeiro-ministro Georges Papandreou nesse fim de semana, Sarkozy avisou à União Europeia que ajuda financeira à Grécia é "obrigação política e moral". Tem suas razões. Se a crise virar sistêmica, a França será a primeira a tombar. Entre os grandes países da Europa, é o mais desindustrializado. Perdeu, nos últimos 20 anos, quase 40% dos seus empregos no setor, que hoje responde apenas por 13% da população ativa. As notícias para o trimestre que finda também não são boas. A projeção de crescimento do PIB, que já era magra (0,5%), foi revista para baixo: 0,4%. Com eleições regionais se aproximando e nova disputa ao Élysée em 2012, o medo do presidente é perder a cabeça.

Bomba-relógio

Sarkozy abre agora de manhã, na sede da OCDE, aqui em Paris, uma conferência internacional sobre acesso à energia nuclear civil. O Brasil, que anda abraçado com o Irã, mandou para o encontro Odair Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Segue levando o tema na flauta do segundo escalão.

domingo, 7 de março de 2010

Professores e professores

Pesquisadores americanos se perguntaram porque professores universitários tendem tanto a ser de esquerda. E descobriram que, na realidade, a questão a ser posta era outra: por que tantos esquerdistas, muito mais que conservadores, desejam ser professores? A explicação está no estereótipo, principalmente o criado no universo das ciências humanas e sociais, em que se costuma imaginar alguém de óculos, laico e esquerdista, blêiser de tweed, fumando um cachimbo e dono de longas frases. A reputação de esquerdismo e laicismo do ensino superior, dizem os pesquisadores, é resultado dos últimos 35 anos, que desestimularam alunos conservadores, ainda no ambiente universitário contaminado por aquelas ideias, a aspirarem à profissão de professor. Tudo bem. Mas penso que isso vale para países como os Estados Unidos e a França. Para o Brasil, não se aplica. Enquanto eles viviam, por exemplo, um 68 agitado, nós amargávamos um AI-5. Vinte anos de ditadura militar destruiu o sistema universitário nacional, cassou muitos professores e tangeu outros tantos das salas de aula durante uma década, pelo menos. A lacuna foi, obviamente, muito bem ocupada por gente conservadora, despreparada e com ligações clericais. Tanto mais porque, na nossa cultura, os pseudointelectuais de direita buscam sempre vínculos acadêmicos para sustentar e validar uma inteligência que não têm. Henry Kissinger, ao que me consta, nunca se intitulou professor, apesar de longo período de serviços a Harvard. O mesmo ocorreu com Claude Lévi-Strauss, que morreu aos 100 anos se chamando antropólogo. No Brasil, no entanto, professor é um título cuja sonoridade a direita adora: Roberto Campos, Delfim Netto, Mailson da Nóbrega, Fernando Henrique Cardoso. Uma coisa, eu digo: muito mais do que daqueles que o usam indiscrimidamente, tenho medo é dos que por eles são formados.